A maioria das pessoas nunca viu crescer o hibisco (Hibiscus sabdariffa) que bebe em infusão e desconhece que o arquipélago dos Açores chegou a ter uma décima ilha, o que não impede essas mesmas pessoas de identificarem com segurança uma grande flor vermelha como o hibisco que bebem ou de enumerarem as nove ilhas atuais.
Neste assunto, confiamos em duas autoridades muito respeitadas, a embalagem do supermercado e o mapa atual. A embalagem pediu emprestada a cara de outra planta e o mapa foi impresso depois de o Atlântico apagar a prova.
Durante alguns meses de 1811, a geografia açoriana contou com dez ilhas. Em junho desse ano, uma erupção submarina fez emergir uma nova porção de terra ao largo da Ponta da Ferraria, em São Miguel. O comandante britânico James Tillard avistou a enorme coluna de fumo a bordo do HMS Sabrina e aproximou-se, julgando que decorria um combate naval. Em vez de navios inimigos, encontrou o Atlântico a fabricar território português diante dos seus olhos.
Dois séculos depois, o desconhecimento muda de território e instala-se nas prateleiras dos supermercados. A infusão de hibisco tornou-se popular em todo o mundo, apesar de a maioria das pessoas nunca ter visto crescer a planta de que é feita. Conhece-se a cor rubi da bebida, aprecia-se o sabor fresco, frutado e agradavelmente ácido e compra-se o produto com a familiaridade de quem julga reconhecer a planta sempre que encontra uma grande flor vermelha num jardim. É precisamente aí que começa o equívoco.
As flores que habitualmente associamos ao nome hibisco pertencem sobretudo a espécies ornamentais, entre as quais o hibisco-da-China (Hibiscus × rosa-sinensis) e o hibisco-da-Síria (Hibiscus syriacus), cultivadas em parques e jardins pela exuberância das suas corolas. A primeira acompanha os climas mais amenos e as varandas abrigadas, enquanto a segunda suporta os invernos dos países temperados e aparece com frequência nos jardins portugueses.
Se faz parte da maioria que julga serem estas as flores usadas nas infusões, não se apoquente, porque o erro tem excelente representação comercial e chega aos produtos de duas das maiores marcas mundiais de infusões, cujos nomes começam por L e por T. Basta entrar num supermercado para encontrar grandes flores vermelhas de hibiscos ornamentais nas embalagens destas e de muitas outras marcas, embora a matéria-prima comercial pertença a uma espécie bastante diferente.
Os departamentos de marketing terão escolhido a parente que fica melhor na fotografia, confiando que ninguém iria abrir a saqueta e reparar que a modelo escolhida para a embalagem nunca entrou na receita.
O hibisco comercializado internacionalmente para infusões é uma malvácea anual de origem africana, cultivada há muitos séculos como alimento, bebida, fonte de fibras e planta medicinal. As suas flores apresentam habitualmente uma corola clara, entre o creme e o amarelo-pálido, marcada por um centro vermelho-escuro, bastante diferente das enormes corolas escarlates que decoram as embalagens. Depois da floração, a corola murcha e cai, deixando o cálice carnudo crescer, engrossar e adquirir o vermelho intenso que associamos à infusão.
São esses cálices, colhidos e secos, que entram nas saquetas e dão à bebida a cor, grande parte da acidez e o sabor característico. Continuamos a chamar-lhes flores, o que é compreensível porque os cálices fazem parte da flor, embora a imagem que quase todos transportamos na cabeça corresponda às pétalas vistosas de espécies ornamentais.
A ilha Sabrina também recebeu uma aparência e uma nacionalidade com alguma precipitação. Quando a erupção abrandou, Tillard desembarcou acompanhado pelo cônsul britânico William Harding Read, hasteou a bandeira britânica e reclamou a nova terra para o rei Jorge III.
A corte portuguesa encontrava-se no Rio de Janeiro e Portugal dependia do auxílio militar britânico, circunstâncias que tornavam particularmente oportuno aquele investimento imobiliário numa ilha ainda a fumegar. Sabrina chegou a elevar-se entre 90 e 100 metros acima do nível do mar e formou um cone com aproximadamente dois quilómetros de perímetro.
O nosso pequeno arquipélago de hibiscos guarda ainda uma espécie cuja nacionalidade botânica foi revista. Durante décadas, o hibisco-palustre (Hibiscus palustris) foi considerado autóctone e entrou na Lista Vermelha de 2020, na qual foi classificado como Criticamente em Perigo, com cerca de 150 indivíduos maduros reunidos numa única subpopulação do Baixo Mondego. Hoje, a evidência disponível redesenha-lhe o passaporte.
A revisão apoia-se no facto de o primeiro exemplar de herbário conhecido no Mondego datar apenas de 1958, de as populações surgirem em locais perturbados e de a espécie pertencer a um grupo evolutivo americano.
Kew coloca-a num táxon norte-americano introduzido em Portugal. Algumas páginas institucionais continuam a apresentá-la como autóctone, demonstrando que o conhecimento científico consegue atualizar-se mais depressa do que os jardins botânicos atualizam os seus sítios na Internet. A planta permanece exatamente no mesmo lugar e é o nosso mapa botânico que atravessa o Atlântico.
Como qualquer planta anual, o hibisco das infusões propaga-se por sementes, cresce rapidamente com o calor, floresce, produz os cálices e completa o ciclo em apenas alguns meses. Muitas cultivares respondem ao encurtamento dos dias e começam a florescer quando o verão se aproxima do fim. A corola pode durar apenas um dia, o cálice permanece durante algumas semanas e toda a planta desaparece com a chegada do frio. É quase tão efémera como a décima ilha dos Açores.
Sabrina também completou o seu ciclo numa única estação. Formada por materiais vulcânicos pouco consolidados, começou a ser desfeita pelas ondas quase desde o nascimento e, em outubro de 1811, desapareceu sob o mar, depois de uma existência suficientemente longa para receber um nome, uma bandeira e uma nacionalidade que nunca chegou a estrear. Hoje, o Miradouro da Ilha Sabrina, em São Miguel, conserva o nome de uma ilha que já ninguém consegue ver.
A maioria dos portugueses desconhece esta história e arrisco dizer que muitos açorianos também. O mesmo acontece com o hibisco que bebem. Sabrina desapareceu dos mapas sob o trabalho das ondas e o hibisco desaparece das embalagens sob o trabalho do marketing, que lhe troca a aparência pela de uma parente ornamental e consegue vender milhões de saquetas sem que quase ninguém dê pela substituição.
Em 2021 e 2022, cultivei esta espécie com fins comerciais. A experiência permitiu-me acompanhar todo o ciclo, desde a germinação até à colheita dos cálices, e descobrir uma planta vigorosa, produtiva e muito mais interessante do que a sua quase total ausência dos campos portugueses poderia fazer supor.
Ainda hoje me sinto fascinado pela magnífica cor e pelo sabor ácido e frutado das infusões preparadas com os seus cálices, enquanto recordo o sabor acídulo, quase avinagrado, das folhas frescas que então juntava às saladas. No Brasil, essa característica explica um dos seus nomes mais expressivos, vinagreira.
Sabrina desapareceu do Atlântico e o hibisco desapareceu das embalagens, deixando-nos a contar nove ilhas enquanto bebemos, com enorme satisfação, a infusão de uma planta que continuamos sem saber reconhecer.




