A Roseraie du Val-de-Marne, em L’Haÿ-les-Roses, nos arredores de Paris, é uma prova extraordinária de que uma coleção de roseiras pode transformar-se num património vivo.
Criada no fim do século XIX por Jules Gravereaux, com desenho do arquiteto paisagista Édouard André, é considerada o roseiral especializado mais antigo ainda existente e uma das grandes referências mundiais entre os jardins dedicados às rosas.
Hoje reúne mais de 11.000 roseiras e cerca de 2.900 espécies e variedades, organizadas em 13 coleções que contam a história da rosa, desde as formas botânicas selvagens até às criações contemporâneas.
A sua importância ultrapassa largamente a beleza da floração. A Roseraie du Val-de-Marne é um conservatório reconhecido para o género Rosa, está ligada à história dos jardins europeus, integra património protegido e recebeu o selo francês Jardin Remarquable, atribuído a jardins de especial interesse cultural, estético, histórico ou botânico.
Conserva uma das mais importantes coleções vivas de rosas antigas do mundo, guarda dois a três exemplares por variedade e demonstra que a beleza, quando é organizada com ciência, método e memória, também pode ser uma forma de conservação.
Este exemplo francês acompanha o meu sonho de criar em Portugal um jardim botânico com várias coleções vegetais, onde as roseiras teriam um espaço próprio, sem esgotarem a ambição maior do projeto.
Imagino um jardim dedicado à flora portuguesa, às espécies autóctones em risco, às fruteiras e hortícolas tradicionais, às plantas aromáticas, medicinais e condimentares, às plantas alimentícias não convencionais (PANC), às turfeiras e áreas húmidas, desenhado e construído com as melhores práticas de restauro ecológico.
Neste conjunto, haveria também um espaço próprio para as roseiras abandonadas, recolhidas em casas degradadas, quintais esquecidos, muros rurais, hortas deixadas ao tempo e campos em abandono. Ao lado delas, imagino uma coleção das roseiras autóctones portuguesas, incluindo as mais comuns e as mais ameaçadas.
Seria um jardim de memória e futuro. Um lugar onde cada roseira tivesse origem conhecida, história própria e valor botânico. Um jardim para conservar plantas, gestos, paisagens, famílias, aldeias e formas de viver que ainda florescem em lugares onde quase ninguém repara.
Todos os anos milhares de pessoas visitam este roseiral. A Roseraie du Val-de-Marne ensina que uma coleção especializada pode transformar-se em património, visitação, pedagogia, visão e valor económico para o território.
Portugal também precisa de jardins assim. Jardins capazes de reunir ciência e emoção, conservação e beleza, memória rural e futuro.
Junho é o mês ideal para conhecer este jardim. Para saber mais informações pode consultar-se o sítio oficial da Roseraie du Val-de-Marne.